Ensaio
Um Minuto com Pé

Numa praia cheia em agosto, ninguém está a olhar para o mar. Olham uns para os outros, para os livros, para a geleira, para as crianças a cavar na areia. Milhares de pessoas, e o mar é só o fundo do quadro.
Para lá da rebentação há alguém a nadar. Não se está a afogar. Hoje não. Está apenas longe, e há muito tempo, e quem está na areia não saberia distinguir de qualquer forma. Quem se está realmente a afogar raramente acena ou grita. O corpo gasta tudo o que tem para se manter à tona, e não sobra nada para fazer sinal. Visto da praia, parece alguém a nadar.
No sábado foi o Dia Mundial da Saúde Mental. Durante um dia, as redes encheram-se de laços, números de linhas de apoio e convites para pedir ajuda. Tudo com boa intenção, e quase tudo assente numa única imagem: quem está na água tem de ser trazido para terra. A recuperação como salvamento. Fora do mar, para a areia, e pronto.
Para muitíssimas pessoas, falta qualquer coisa a essa imagem. O mar não é um acidente onde caíram. É onde vivem. Nadam nele todas as manhãs. Há manhãs em que o mar está chão e o esforço é quase fácil. Há outras em que não, e manter-se à superfície é o dia inteiro. Isto não é falhar em melhorar. É a forma que a coisa tem.
De que precisa quem nada assim? Não da costa. Uma costa que se afasta sempre mais torna-se um peso à sua maneira. O que ajuda é mais pequeno, uma rocha onde pousar a mão, uma boia, um banco de areia onde, por um minuto, há pé e os pulmões se enchem por completo. Ninguém fica num banco de areia. Não é para isso que serve. Serve para o minuto.
Um bom ponto de descanso não pede nada. Não quer uma história, nem um relatório de progresso, nem uma estimativa de quanto falta. Algumas destas rochas são pessoas: a que liga sem motivo nenhum, ou o colega que repara que alguém ficou calado e não diz nada de especial, apenas fica. Outras são horas, como uma longa caminhada ou uma página. Outras são uma única frase ouvida no momento certo, que às vezes é a única luz que há, e é agarrada precisamente por isso.
A crueldade da praia cheia não está na indiferença. Está no cuidado apontado à imagem errada. Todos esperam o grito, o aceno, a mão acima da água. Entretanto, quem nada continua, com constância e em silêncio, muito ao largo. A coisa mais útil que alguém pode oferecer não é um salvamento. É um sítio onde se agarrar.
Por isso, no dia a seguir ao dia, a pergunta não é se alguém precisa de ser salvo. É mais simples, e mais difícil: haverá por perto alguma coisa que uma mão cansada possa agarrar?
Lá ao largo, ninguém está a pedir a costa.
Só a rocha, e o minuto.