Os Inacabados

Galleria dell’Accademia 2020 - D during COVID-19
Galleria dell'Accademia, Florença, Itália - Junho 2020. (original photo)

A frase está por toda a parte. Em cartazes, em discursos de fim de curso, impressa sobre fotografias de mármore branco: “Vi o anjo no mármore e esculpi até o libertar.” É atribuída a Miguel Ângelo com absoluta confiança, e traz consigo uma filosofia completa sobre fazer coisas, e sobre ser alguém. A figura já lá está dentro. O trabalho é retirar o que a esconde. Nunca ninguém encontrou a frase em nada que ele tenha escrito.

O que ele escreveu foi um soneto, e o soneto é mais estranho e mais honesto. O melhor artista não tem conceito algum, diz o poema, que um só bloco de mármore não contenha já dentro do seu excesso, e só lá chega a mão que obedece ao intelecto. Os cartazes param aqui. O poema não. Vira, e o que se torna é uma confissão de fracasso, o dele, um homem diante daquilo que ama e incapaz de dali tirar outra coisa que não a própria morte. A versão célebre promete o anjo. A verdadeira promete apenas o alcançar, e foi escrita por alguém que se queixava de que o seu alcance ficava aquém.

Podemos pôr as duas versões à prova num único corredor em Florença. Na Galleria dell’Accademia, toda a gente caminha na direção do David. O corredor foi construído para isso: a obra-prima acabada está ao fundo, sob a sua claraboia, branca e resolvida, e a multidão avança para ela como uma corrente. Mas o corredor pertence a outras quatro figuras, as que se chamam os Prisioneiros, e a frase que as descreve prepara-nos muito mal para elas. Diz-nos que veremos figuras a serem libertadas, almas a emergir da pedra a caminho de ficarem completas. Não é isso que lá está. O que lá está é detenção. Um torso contorce-se para fora da rocha bruta e detém-se. Um rosto nasce a meio e pára. As marcas do cinzel ainda se leem, as passagens grosseiras e as mais finas, toda a gramática de um dia de trabalho interrompido. De pé diante deles, nada disso os torna menores. Alguns de nós ficam mais tempo diante dos Prisioneiros do que diante do David.

Mais adiante, na mesma sala, está um São Mateus, o único dos doze apóstolos que Miguel Ângelo chegou a começar ao abrigo de um contrato assinado em 1503. Desbastou-o e deixou-o ali quando partiu para Roma. Ninguém lhe tocou desde então. Ficou de pé a meio da frase durante quinhentos anos, e a sala organizou-se à sua volta como se essa fosse uma maneira perfeitamente vulgar de uma coisa existir. Que é.

A história por trás dos Prisioneiros não é romântica. Foram talhados para o túmulo do Papa Júlio II, uma encomenda que começou em 1505 como o maior projeto escultórico da época e que depois encolheu, contrato a contrato, ao longo de quatro décadas. Júlio já tinha morrido havia anos quando estes quatro foram começados, por isso a sua morte não é a razão por que pararam. O que os parou foi algo mais pequeno e mais familiar: um contrato renegociado em baixa pelos herdeiros da família, as figuras retiradas do projeto, e uma mudança para Roma por causa de outro trabalho. Depois da morte de Miguel Ângelo foram parar a uma gruta de jardim em Florença, ao frio e à humidade, como cenário, durante três séculos, e só chegaram à Accademia em 1909. E os estudiosos ainda discutem a paragem em si. Uns leem o estado inacabado como intenção, uma estética deliberada, o non finito. Outros leem-no como circunstância, um homem soterrado em obrigações que nunca mais lhes voltou. A maior parte das coisas inacabadas não tem uma razão só.

A ciência fez as pazes com isto há muito tempo. Todos os artigos acabam da mesma maneira, com alguma versão de “further research is needed”, uma frase ritual, fácil de ridicularizar, e que é na verdade toda a ética da disciplina dita em quatro palavras. Anunciámos o genoma humano completo em 2003 com cerca de oito por cento ainda por ler, as regiões mais repetitivas, e só em março de 2022 o consórcio Telomere-to-Telomere publicou uma sequência sem lacunas, de uma única linha celular, e das menos típicas. O anúncio de 2003 não foi uma mentira. Foi um ponto de paragem que se aguentou, um torso suficientemente bom para trabalhar a partir dele, e é isso que a maioria das coisas acabadas na ciência acaba por ser, vista de perto.

Trabalho em transplantação, por isso vejo isto numa forma concreta. Quando desenhamos uma curva de sobrevivência, a linha desce em degrau a cada morte, e ao longo dela ficam pequenos traços verticais por onde a maior parte dos olhos passa sem ver. Cada traço é um doente censurado: alguém que ainda estava vivo da última vez que o estudo o viu, alguém cuja história o estudo não chegou a terminar. Alguns chegaram ao fim do seguimento. Outros mudaram de terra, ou desistiram, ou simplesmente deixaram de aparecer, e o estudo não faz ideia do que aconteceu a seguir e di-lo. A curva não finge saber como acabam essas histórias. Marca, com precisão, o limite daquilo que foi visto. A coisa mais rigorosa da página é essa pequena admissão. O método é honesto da mesma maneira que o corredor é honesto. Mostra onde a mão parou.

Contamos a história do anjo também sobre as nossas vidas, e é aí que ela faz o verdadeiro estrago. A figura verdadeira de cada um está lá dentro, diz a história, à espera na pedra. Encontra-se a vocação, liberta-se a forma, e ao fundo do corredor está o eu completo, iluminado de cima. É uma bela história, e converte silenciosamente tudo o que ficou por acabar em prova de fracasso. O livro parado no capítulo três. A amizade que se desvaneceu a meio da frase. Se a figura esteve sempre lá dentro à espera, então cada bloco abandonado é um anjo que se falhou.

Uma vida parece-se mais com o corredor do que com a estátua ao fundo dele.

Olhemos outra vez para o que os Prisioneiros são. Não são fracassos do David. São a mesma mão, a mesma inteligência, apanhados por outro tempo. Ninguém percorre aquele corredor a pensar menos do homem porque quatro das suas figuras nunca se libertaram. As marcas de cinzel que outrora eram prova de interrupção são hoje aquilo de que as pessoas se aproximam para ver, porque mostram uma coisa que a superfície polida esconde, que é como o trabalho foi realmente feito. O inacabado não é o contrário do conseguido. É o registo do alcance, guardado no único material que não lisonjeia.

Miguel Ângelo, já velho, foi chamado a resolver a velha discussão sobre se a pintura ou a escultura era a arte maior, e deu uma resposta sem anjos nenhuns lá dentro. Escultura, escreveu, é a arte que se faz por via de se tirar. Disse-o como distinção técnica, e hoje lê-se como outra coisa, maior. Não a libertação do que espera lá dentro, apenas a remoção paciente do que está diante da mão hoje. É também uma definição funcional de uma vida, e mais generosa do que a do cartaz. Não temos a promessa da figura. Temos a pedra, as ferramentas, a hora, e a obrigação da mão que obedece. Alguns blocos hão de sair inteiros. A maior parte não, e os que param a meio da frase continuam a contar, continuam de pé, continuam a valer a caminhada pelo corredor.

Não o anjo. O alcançar.

M.