Um Sítio Onde Pousar
Há uma frase que se diz a quem está a sofrer, e diz-se com a melhor das intenções. Diz-se nos funerais, à porta dos hospitais, às crianças que caem, aos adultos que se divorciam, a quem perde o emprego, a quem perde alguém. Sê forte. Aguenta-te. Tens de ser forte, agora mais do que nunca. Parece um conselho, e é assim que a recebemos, como uma instrução para o que fazer a seguir. Não é um conselho. É um pedido. Pede a quem está no meio da dor que trate de nós, que não nos assuste, que mantenha a cara composta o tempo suficiente para que a nossa também se mantenha. Quem diz "sê forte" está quase sempre a pedir para não ter de segurar em nada.
Quem trabalhou em cuidados intensivos conhece o outro lado desta frase. Conhece o corredor às três da manhã, a família de pé junto à máquina do café, a pergunta que ninguém faz porque já sabe a resposta. E conhece o que acontece quando uma enfermeira, ou um médico, ou muitas vezes só a senhora da limpeza, se aproxima e não diz nada de útil. Põe uma mão num ombro. Fica ali. Trinta segundos, um minuto, o tempo que for. Nesses minutos não se resolve nada, não se explica nada, não se promete nada. E, no entanto, são muitas vezes o único momento dessa noite de que a família se lembra passados dez anos. Não da conversa com o médico. Da mão.
Um abraço não pergunta nada. Também não responde a nada. É por isso que serve.
Somos maus a aceitar isto. Fomos ensinados a valorizar o que resolve, o que produz, o que fecha o assunto, e um abraço não fecha assunto nenhum. Os problemas ficam exatamente onde estavam. A dívida continua lá, o diagnóstico continua lá, a distância continua lá. Por isso tratamos o abraço como um gesto menor, uma coisa simpática que se faz antes de voltar ao trabalho a sério. E, no entanto, o corpo sabe uma coisa que a cabeça teima em não aprender. Há uma diferença entre um problema que se carrega sozinho e o mesmo problema carregado por alguém durante um minuto ao nosso lado. O peso é o mesmo. A pessoa que o carrega já não é.
Os marinheiros conhecem um fenómeno que ajuda a pensar nisto. No meio do Atlântico, a centenas de milhas de qualquer costa, aparecem por vezes pássaros no convés. Pequenos, terrestres, sem nada que fazer no meio do mar. São aves migratórias que se desviaram, ou que apanharam vento contrário, e que já voam há mais horas do que o corpo aguenta. Pousam no barco porque é a única superfície que existe. Não perguntam para onde vai o navio. Não lhes interessa. Ficam uma hora, uma tarde, uma noite, sem se esconderem de ninguém, tão cansadas que se deixam olhar de perto. E depois, quando o corpo lhes devolve o que precisam, levantam voo e vão à vida delas, que nunca foi a do barco.
O barco não as salva. Não as leva a lado nenhum, não lhes corrige o rumo, não lhes dá de comer. Oferece um sítio onde pousar durante o tempo em que pousar é a única coisa que interessa. É pouco, e para o pássaro é tudo.
Passamos anos à procura do porto e, no entanto, o que a maior parte de nós precisa, na maior parte dos dias, é do convés, uma superfície firme durante uma hora, sem perguntas, antes de voltar ao vento. A vida é um turbilhão que não pára para ninguém. A força que nos pedem não é para o vencer. Ninguém o vence. O que nos falta não é mais força. É um sítio onde pousar entre uma volta e a seguinte.
E aqui está a parte que ninguém diz nos funerais. Os sítios onde pousamos nem sempre estão perto. Alguns ficaram do outro lado de escolhas que fizemos aos vinte anos, escolhas que na altura pareciam pequenas e que se transformaram, sem avisar, em vidas inteiras. Uma cidade em vez de outra. Um curso, um emprego, um casamento, filhos que cresceram e são agora adultos com vidas próprias. Uma vida ficou de um lado do oceano e a outra do outro, e as duas correram, em paralelo, durante décadas, cada uma sem saber grande coisa da outra. Sem discussão. Apenas a distância a fazer aquilo que a distância faz, que é ir ficando.
O que a distância não faz é apagar o convés. Há pessoas que continuam a ser um sítio onde pousar mesmo depois de vinte ou trinta anos sem pousarmos nelas. Sabe-se disso de uma maneira estranha, sem prova, da mesma maneira que o pássaro sabe que aquela superfície aguenta. E às vezes a vida devolve-nos uma dessas pessoas por um caminho que ninguém desenhou. Alguém, do outro lado do mar, encontra por acaso umas páginas que escrevemos e lê-as todas, de seguida, numa noite. E do outro lado das páginas há alguém que, ao saber disso, sente uma coisa que não tem nome em nenhuma das línguas que aprendeu a falar. Não é saudade, que é palavra de quem espera. É mais parecido com o que o pássaro deve sentir quando vê o barco: o corpo a reconhecer, antes da cabeça, que ali se pode pousar.
Um abraço mandado através de um ecrã é uma coisa diminuída. Não tem braços, não tem peso, não tem o cheiro de quem o dá. Seria fácil desprezá-lo. Mas há uma altura da vida, em que se percebe que quase tudo o que temos de bom chega diminuído, por caminhos tortos, tarde e incompleto, e que a alternativa não é a versão inteira. A alternativa é nada. Um abraço através de um ecrã, vindo de quem sabe exatamente de que abraço se está a falar, não é uma imitação do verdadeiro. É o verdadeiro a atravessar a única superfície que existe entre duas vidas, e a chegar.
Se estás a ler isto de longe, e cansada de ser forte, aqui não há perguntas. Não há respostas. Não há nada para resolver, e ninguém te vai pedir que trates de mais ninguém durante o tempo que ficares. Fica o tempo que for preciso. O mar continua lá, e a tua vida também, e nenhuma das duas precisa de ti nesta hora.
O barco não pergunta ao pássaro para onde vai. Deixa-o ficar.
M.